A escola Chen de Tai Chi Chuan

by Rollyn / 08 Maio 2013 / No Comments

 

T aijiquan… um nome universal, que nos recorda imagens de televisão onde praticantes de idade avançada se exercitam de forma lenta e harmoniosa nos parques públicos chineses. Se bem que esta imagem estereotipada não esteja longe da realidade, o Taijiquan é muito mais que um grupo recreando-se de forma espontânea. Paradoxalmente, e ao contrário do que se possa pensar, surge na sua forma original como uma aglutinação de variados métodos de luta, suavizado pelo tempo e por teorias tradicionais, transformando-o num conjunto de exercícios holísticos, de natureza filosófica, enquadrando o praticante no seu meio envolvente e no reencontro consigo próprio. A prática constante e assídua proporciona uma agradável sensação de paz e bem estar físico e emocional, aprofundando a capacidade respiratória e carregando as reservas energéticas, estimulando e potenciando a mente humana para um estado superior de tranquilidade e clarividência.

O próprio nome que designa esta arte e cujo significado traduz algo como “Punho do Supremo Último”, encontra as suas raízes na filosofia Taoísta e Confucionista onde o termo “Supremo Último” representa a fusão Yin Yang, descrita simbolicamente pelo símbolo Taijitu, constituindo também as linhas mestras da medicina tradicional chinesa. Esta dualidade Yin Yang é um conceito activo e surge do vazio (wuji) ou de um estado de quietude temporal indefinido, movendo-se interactivamente porém de forma equilibrada, até que o mesmo estado de quietude seja alcançado outra vez. A própria execução das sequências de Taijiquan, representam simbolicamente este princípio: da quietude original surge o movimento com mutações constantes de cheio e vazio, uma alternância cíclica Yin Yang em perpétuo equilíbrio, nascendo o movimento do anterior e fundindo-se no seguinte até o estado de quietude ser alcançado novamente na finalização da sequência, fechando-se o ciclo, ponto de partida para novo ciclo.

De forma sintética e seguindo matrizes taoistas onde se inspirou, a prática do Taijiquan relaciona de forma harmónica homem e natureza, através do Tao, utilizando técnicas e métodos estruturados de exercitação lenta e de meditação, ente outras, para percorrer este caminho. A técnicas taoistas resultam em meios holísticos baseados na prevenção (em termos médicos) com o objectivo de lograr saúde e longevidade, para uma maior elevação espiritual.

O estado de concentração e calma mental cultivado pela meditação activa do Taijiquan, resulta na manutenção de um estado de saúde optimizado, aliviando o stress e acabando por manter um equilíbrio homeostático regulador. A libertação de endorfinas, substâncias neurotransmissoras, são produzidas como resposta à actividade física e mental do exercício de Taijiquan, provocando uma intensa sensação de relaxamento e despertando um estado de euforia e bem-estar, aumentando como consequência a disposição física e mental, a capacidade de memória, o estado de espírito, a resistência, entre outros benefícios.

Mas na base de todos estes conceitos e benefícios, encontra-se o próprio exercício, uma arte marcial suave de movimentos fluidos e harmoniosos, em que a habilidade da sua aplicação é o teste supremo da sua cabal compreensão. Uma arte marcial em que, mais do que a utilização da força bruta e explosiva como resposta a forças exteriores, a manipulação destas forças é efectuada de forma suave e lúdica, absorvendo as mesmas e desviando-as para o vazio, seguindo os princípios de alternância Yin e Yang. O objectivo último do Taijiquan é o combate: do controle das forças externas ao controle das forças internas; do domínio do adversário ao próprio domínio; da agitação da luta à tranquilidade da mente.

 

O sistema Chen

O sistema Chen é um das cinco grandes famílias do Taijiquan. Diferencia-se das outras escolas pelas posturas mais baixas, mais explícitos movimentos “Tecedura da Seda” (Chan Si Jin) e descargas energéticas (Fa Jin) periódicas, a manifestação da força explosiva do Chen. O uso da mente, o controle da respiração, a manipulação da energia interna (Qi) e a utilização de movimentos espiralados com o centro no Dantien permitem a ligação ao corpo externo de forma encadeada, optimizando o exercício e conectando corpo, mente e espírito num único elemento, permitindo que este ondule de acordo com a dualidade Yin Yang, cheio e vazio, retiro e avanço, alto e baixo, esquerda e direita, suave e duro.

Embora actualmente existam diversos métodos e escolas de Chen Taijiquan, todas elas se baseiam no conceito original de Chen Changxing, o grande reformador do sistema. Basicamente, um conjunto de exercícios para desenvolvimento da força interna e fortalecimento do Qi, a prática de um par de sequências sofisticadas que representam a essência técnica do sistema, conjuntos de exercícios a dois (tui shou) de acordo com os princípios fundamentais e o uso e manejo de variadas armas.

Actualmente, quase todos os métodos e escolas de Chen Taijiquan baseiam-se na Laojia (Velha Forma), com as sequências Yi Lu e Er Lu (chamada também de Punho Canhão) de 72 e 43 movimentos respectivamente. No século XX e já perto do final de vida, Chen Fake desenvolveu um pouco estas sequências de acordo com a sua própria experiência, transmitindo-as a seu filho Chen Zhao Kui que por sua vez, no regresso a Chenjiagou em 1974, as introduziu no ensino do sistema, ficando mais tarde conhecido por Nova Forma (Xinjia) Chen Taijiquan. Nestas alterações, foram adicionados mais 11 posturas a Lao Jia Yi Lu, ficando com 83 movimentos, resultando também numa manifestação do Fajing e da energia espiralada de forma mais complexa.

Recentemente, para uma mais fácil introdução ao Chen, alguns mestres conhecidos desenvolveram um conjunto de sequências simples com poucas posturas, que permitem uma abordagem progressiva ao sistema. Chen Zheng Lei criou uma sequência de 18 movimentos, Chen Xiao Wang uma de 19 movimentos e outra de 38, entre outras surgidas entretanto. Estas sequências normalmente integram o currículo das linhas dos respectivos mestres, mas são, na sua generalidade, ensinadas em seminários e workshops permitindo uma introdução ao Chen Taijiquan facilitada.

 

A prática do Chen Taijiquan

No Taijiquan existem três componentes fundamentais na progressão da aprendizagem: a mente, a respiração e o movimento. Uma mente concentrada e focalizada permite um controle respiratório adequado ao exercício e movimentos harmoniosos e precisos de acordo com os princípios fundamentais da prática do movimento. A importância de um só existe quando ligado a outro, numa sucessão contínua de acontecimentos e interdependência; o movimento per se não faz sentido se a ele não estiver conectado uma intenção (Yi) e alimentado por uma respiração e fluxo energético eficaz, motores essenciais na construção do movimento. Por outro lado, a mente, sem objecto que transporte e canalize as suas intenções, existirá apenas como consciência, deixando de ser Taiji e sua alternância Yin Yang.

Estes três componentes, difíceis de coordenar no início da prática na arte do Taijiquan, adquirem a sua dimensão quando acoplados aos fundamentos teóricos desenvolvidos durante centenas de anos por mestres dedicados e comprometidos com a sua arte. A natureza do exercício na arte do Taijiquan pressupõe um estado mental calmo, a execução de movimentos suaves, lentos e relaxados e o desenvolvimento do fluxo energético, lembrando a sua execução a tecelagem da seda, e chamado por isso Chan Ssu Gong.

O Taijiquan é uma arte interna que requer o desenvolvimento da energia interna (Neijing), mas também o treino externo, sendo o conjunto das duas manifestado pelas acções externas. O praticante inicia-se nos aspectos mais simples do Taijiquan, sentindo através do movimento toda a dinâmica do exercício, entendendo progressivamente os seus princípios e mecânica, e avançando lentamente para os aspectos mais sofisticados e difíceis da arte. A evolução pressupõe várias etapas, de construção progressiva, sendo que o Zhan Zhuang e o Chan Ssu Gong são as ferramentas básicas, passando progressivamente à aprendizagem das formas (Taolu), ao desenvolvimento da força explosiva Faqing, ao treino de armas e a prática de exercícios a dois, Tuishou, para desenvolvimento da sensibilidade. Cada uma destas etapas possui características que focalizam o praticante para determinado aspecto da arte, constituindo o somatório a fenomenal arte do Taijiquan, cuja mestria está directamente relacionada com a prática diária, assídua e diligente assim como com a correcta interpretação de toda a sua dimensão técnica, filosófica, esotérica e histórica.

E esta prática prolongada desenvolverá e fortalecerá a força interna e suas componentes, Jing, Qi e Shen. O Qi tornar-se-á mais forte e cheio, preenchendo o Dantien e os canais energéticos (Jingluo), saturando todo o corpo. O seu cultivo, armazenamento e circulação, permitirá a livre expansão a todo o corpo que, em conjunto com o Jing, serão manifestados externamente por músculos, tendões e ossos através de movimentos fortes, rápidos, precisos e flexíveis, ou da solidez dos seus movimentos suaves, relaxados e harmoniosos.

 

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