Estilos tradicionais e estilos modernos

by Rollyn / 08 Maio 2013 / No Comments
As artes marciais chinesas são hoje provavelmente as mais expressivas, coloridas e completas artes de combate e defesa pessoal. São elas fruto de centenas de anos de evolução, absorvendo com o compasso do tempo as mais distintas valências de uma cultura ancestral e milenar, reduzindo objetivamente a sua expressão marcial à parcela cultural que lhe corresponde, no âmbito do seu estudo, prática e desenvolvimento.

 

T radicionalmente reguladas com um conjunto de códigos e comportamentos muito específicos, que lhe emprestaram uma dimensão e identidade muito peculiar, as artes marciais tradicionais foram sendo transmitidas diretamente de mestre para discípulo, de pai para filho ou de monge para noviço, enriquecendo cada geração o legado recebido, e transmitindo à geração seguinte uma arte mais rica e elaborada do ponto de vista do conhecimento humano, em que a medicina tradicional chinesa, as filosofias comportamentais e espirituais, as artes divinatórias e similares, lhe adicionaram essa dimensão tão característica e popular no seu país de origem, alastrando também ao ocidente, onde milhares de praticantes se revêem na sua prática diária.

Conhecidos objetivamente, e cada um deles com uma história e ancestralidade muito específicas que remontam pelo menos a três ou quatro gerações, estes sistemas constituem a quinta-essência das artes marciais chinesas, a partir da qual nasceu a interpretação contemporânea destas disciplinas, a versão comunista de reeducação do povo, no seu original dos idos anos 50.

Esta nova orientação, apesar de não redutora, relegou institucionalmente as artes tradicionais para segundo plano, primeiro por proibição em certa época histórica, posteriormente por ditadura institucional.

Nasce assim um novo paradigma, as artes marciais institucionais e institucionalizadas – o Wushu contemporâneo – baseadas na matriz marcial dos sistemas tradicionais. Ficamos assim com duas novas tendências contemporâneas na abordagem às artes marciais chinesas:

  1. Os sistemas tradicionais históricos (mais conhecidos sob a designação de Kung Fu), com uma história registrada de pelos menos 3 ou 4 gerações e uma identidade marcial muito particular, de acordo com a sua localização e em que a marcialidade da sua natureza não esconde os objectivos que lhes deram origem. Hung Gar, Choy Lee Fut, Wing Chun, Tang Lang, Bachi, Chang Chuan, Shaolin, Yang Tai Chi, Chen Tai Chi, etc., são apenas alguns sistemas das centenas já catalogados.
  2. Os sistemas modernos (normalmente conhecidos por Wushu), que se por um lado obedecem a um novo padrão estandardizado de vocação educativa e desportiva com a criação de novas rotinas institucionalizadas, por outro especializam o praticante na vertente competitiva (não confundir com a desportiva) em que as rotinas desenvolvidas procuram a excelência e limites das capacidades atléticas, com um sentido prioritário de ordem estética e acrobática, requisitos somente ao alcance de atletas especializados.

Dentro da amplitude abrangente do Wushu moderno, teremos de considerar as seguintes tendências:

  1. Wushu estandardizado ou institucional, com objetivos educativos e desportivos, em que a criação de novas rotinas formam um padrão a partir do qual se procura definir e homogeneizar a prática das artes marciais chinesas.
  2. Wushu de competição (anteriormente estandardizado nas suas distintas especializações), assentando numa alta componente ginástica onde predominam movimentos técnicos essencialmente acrobáticos, longas corridas, teatralidade acentuada, quedas em splits e o cruzamento destas componentes com outros aspectos mais marciais.
  3. Wushu tradicional (essencialmente de competição), onde se presume a execução de rotinas de um sistema marcial tradicional, ou influenciado por este, no entanto de criação livre com a inclusão da matriz do Wushu moderno e de competição.

De notar que estas tendências do Wushu contemporâneo, têm atualmente como premissa fundamental a elaboração livre das suas rotinas baseadas na capacidade criativa de profissionais experientes, obedecendo no entanto a um conjunto de requisitos técnicos pré-definidos.

A grande questão que hoje se coloca em grande parte das instituições internacionais destas modalidades, é que, se bem a popularidade do Wushu moderno seja incontestada no regime comunista e totalitário do país que lhes deu origem, e onde o controlo apertado e a política desportiva apontada se sobreporá sempre à tendência e vontade dos praticantes, nos países ocidentais tal não acontece, tendo vingado claramente os sistemas tradicionais, ocupando o Wushu moderno apenas uma percentagem reduzida no universo dos praticantes, adicionando o facto de os respectivos governos serem alheios às orientações desportivas das instituições que tutelam estas artes.

Portugal não foge a esta regra, sendo que a realidade nacional se compõe na sua grande maioria de praticantes de sistemas tradicionais, claramente prejudicados pela linha desportiva adotada pela federação respectiva, que tem em conta unicamente os interesses de uma restrita parte do universo dos praticantes, acabando por prejudicar atletas e associações dos sistemas tradicionais, que acabam por boicotar as competições nacionais e outras atividades relevantes, reduzindo-as a uma dimensão regional, como tem acontecido sistematicamente nos últimos campeonatos nacionais, facto que prejudica substancialmente a divulgação destas artes, uma vez que as competições nacionais têm hoje forte carácter promocional.

Com um sistema competitivo claramente orientado para o Wushu moderno, nas suas variantes Wushu de competição e Wushu de competição tradicional, qualquer atleta de um sistema tradicional histórico encontra-se obviamente em desvantagem, dada a distinta natureza das componentes técnicas do sistema que pratica, diametralmente opostas às criações livres e espontâneas do Wushu moderno, cujo único objetivo é a alta performance e rendimento desportivo estético e acrobático, com a execução de exercícios virados cada vez mais para o espetáculo.

Enquanto os sistemas tradicionais históricos constroem a sua matriz com o objetivos marciais obedecendo a um conjunto de princípios que orientarão sempre o sistema no sentido da eficácia marcial, os sistemas modernos (sejam eles os tradicionais, de imitação ou livres) constroem os seus movimentos com base numa otimização da velocidade e corrida, permitindo que as suas coreografias sejam efetuadas a um ritmo bastante elevado, tudo em nome da espetacularidade e entretimento. Ora, conjugar estas duas tendências numa competição com as mesmas regras, é como querer juntar azeite e água e esperar que a mistura se torne homogênea…!

Neste momento o Wushu de competição está na corrida para os jogos olímpicos de 2020 juntamente com o Baseball, Karate, Patinagem, Escalada, Squash e Ski, ocupando neste momento a posição mais desfavorável em relação aos seus rivais, de acordo com o sítio SportsPro, um sintoma daquilo que poderá vir a ser o cenário mais plausível. Nesta luta, e de acordo com o mesmo sítio, o Karate ocupa o segundo lugar, uma forte machadada nas aspirações do governo chinês, que não consegue ver representada no movimento olímpico uma modalidade sua, contrariamente ao que acontece com a Coréia que tem o Taekwon-Do e o Japão que já com o Judo incluído nestes jogos, está fortemente lançado para incluir também o Karate.

Esta posição reflete na realidade a popularidade do Wushu a nível mundial, um desporto menor quando comparado com outras modalidades menores, e um desporto que também ele pouco conta com o apoio da comunidade internacional de sistemas tradicionais, uma comunidade substancialmente maior que a do próprio Wushu.

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