Kung Fu, a via do guerreiro

by Rollyn / 07 Maio 2013 / No Comments

 

V ajranara, mais tarde Jinnaluo, ocupa um lugar de destaque na ordem monástica de Shaolín e no panteão budista das divindades protectoras. Venerado desde o período Tang tardio, o seu culto tem um significado muito especial para os monges guerreiros desta ordem monástica, situada na província nortenha de Henan, numa zona montanhosa rodeado de ciprestes, propícia ao retiro e meditação que os preceitos da doutrina exigem.

 

O budismo e as artes marciais: a génese do Kung Fu

Vajranara é uma figura imponente, retratada invariavelmente com músculos proeminentes e torso destapado, olhar agressivo através das suas órbitas salientes, transportando consigo um varapau, um dos objectos pessoais permitidos aos monges budistas. Esta divindade (patrono das artes da guerra) simboliza no entanto muito mais que uma simples figura de protecção, fonte de poderes divinos transmitidos aos monges através da invocação da sua figura; personifica o culto das artes da guerra, que surgem da necessidade de protecção do templo e terras monásticas de agressões e pilhagens sucessivas ao longo da longa e conturbada história do mosteiro de Shaolín.

Balizados por uma religião pacífica, em que o uso da violência não só não é permitido mas também condenado, o desenvolvimento das artes marciais de Shaolín é na realidade um contra-senso histórico e religioso, que encontrou na adoração a Vajranara o campo divino ideal para se instalar no quotidiano monástico dos monges, tornando-se utensílio fundamental das necessidades de defesa bem como complemento de fortalecimento físico às práticas ascéticas exigentes do budismo Chan (se uma figura divina podia utilizar a violência como forma de protecção, porque não simples monges, que muitas vezes viram as suas vidas dependentes de caprichos irascíveis de assaltantes, bandidos ou senhores da guerra).

Do simples manejo inicial  das técnicas de varapau, desenvolveu-se no mosteiro de Shaolín um sistema marcial mais sofisticado e complexo, juntando-se posteriormente técnicas marciais a mãos nuas aos exercícios ginásticos calisténicos já existentes, bem como complexas teorias filosóficas e alquimistas emprestadas pelos taoistas, fruto não só de fluxos e intercâmbios da comunidade religiosa, militar e civil, mas também do sincretismo religioso que caracterizaram determinados períodos históricos, principalmente a transição da dinastia Ming para a Qing.

O caminho de Buda desta corrente religiosa em particular, viu-se fortalecido por uma nova disciplina capaz de completar o longo e austero caminho do ascetismo religioso; a prática diária das artes marciais, fornecia o instrumento necessário ao fortalecimento de corpo, mente e espírito, na escalada dos patamares de acesso ao despertar, à auto-iluminação e libertação do ciclo infindável da vida… e dava uma mãozinha nas questões terrenas das necessidades de protecção e defesa comunitárias.

Mas foi somente durante a última dinastia, que se deu a dispersão das ancestrais técnicas marciais dos monges guerreiros para a sociedade civil, originando um leque de variações impressionante, e em que o substrato filosófico e religioso se manteve de uma forma geral transversal à grande maioria.

Surge assim um novo paradigma que subsiste até à actualidade e se transforma em culto renascido (face ao apagamento dos inícios da república), todavia mantendo o misticismo e esoterismo original, fruto de uma sociedade mais informada e instruída, e cujos conteúdos já não são exclusivos de uma ordem monástica isolada no coração montanhoso do país. As deflexões dos novos métodos entretanto desenvolvidos, atingem um elevado grau de sofisticação e exigência, transformando-se mais num “pot-pourri” multifacetado, em que as práticas marciais, agora conhecidas por Kung Fu ou Wushu, mais não são do que uma parte do todo, compostas essencialmente pela absorção de técnicas e teorias específicas do estudo do sistema energético do homem (Qi), de princípios ancestrais que determinam a sua matriz técnica e filosófica, da integração de teorias da Medicina Tradicional Chinesa, bem como aspectos culturais muito particulares como as danças do leão e dragão, cosmologia popular, estudo e prática do Feng Shui, entre outros.

 

Um fenómeno de abrangência mundial

Pouco conhecido no ocidente até meados da década de 70, e coincidindo com a “new age” em voga neste período, as artes marciais chinesas (Kung Fu) tornam-se rapidamente populares não só pela apetência ocidental por novas filosofias alternativas como também pelas grandes produções cinematográficas de Hong Kong, que promovem o culto do mestre sábio e disciplinador, envolto nas profundezas esotéricas do misticismo e especialista nas artes de combate a mãos nuas, cujos conhecimentos foram adquiridos após anos de provações e treinos intensos sob o olhar severo e austero de velhos monges Shaolín.

Esta figura caracterizada pela indústria cinematográfica, rapidamente ascende à categoria de mito no imaginário popular, acentuada mais tarde pelo filme “Templo de Shaolín” com o actor Jet Li, e que relança a nível mundial não só as artes marciais chinesas e a existência do próprio templo (destruído em 1928 e votado ao abandono até finais da década de 70, a partir do qual renasce das cinzas para nova época de resplendor) mas também as disciplinas tradicionalmente agregadas, que geram uma nova corrente filosófica do auto-conhecimento e reflexão pessoal, uma fusão entre a prática das artes marciais e conceitos budistas/taoistas que penetram profundamente na natureza da auto-consciência e da realidade última.

Hoje, a popularidade destas novas correntes e disciplinas é um fenómeno de abrangência mundial (e o templo Shaolín um ícone universal da cultura chinesa), em que os sistemas Kung Fu de Shaolín e seus derivados, como é o caso do Tai Chi Chuan, representam o corolário de um novo enquadramento das artes marciais chinesas, em que a prática do combate a mãos nuas mais não é do que uma vertente dum sistema mais amplo e complexo, que abrange áreas diversificadas da produtiva cultura tradicional chinesa.

 

Marcialidade, disciplina física e mental

Qual a razão então da popularidade tão notória destas disciplinas marciais e suas derivadas? Evidentemente que a divulgação destes métodos enquanto artes formativas de combate, com o seu rigor disciplinador e educativo, contribuem de forma substancial para esta posição; factores como incremento das aptidões físicas e atléticas, melhoria acentuada das capacidades de autodefesa, incremento das faculdades mentais estão na primeira linha desta popularidade, e normalmente coincidem com os critérios de escolha de uma disciplina desta natureza, na hora de escolher um rumo desportivo ou retirar uns kilitos a mais…

Não obstante estas prerrogativas, podemos considerar ainda o lado esotérico e místico como um factor que empresta uma dimensão adicional, bem como os aspectos terapêuticos provenientes da prática contínua e regular, canalizados essencialmente através da exercitação no Chi Kung, um complemento existente em praticamente todos os sistemas (muitas vezes um sistema em si). Podendo ser de natureza externa e dura cujos objectivos visam essencialmente máxima potenciação dos exercícios marciais, o Chi Kung pode também ser de natureza interna, de características suaves e harmoniosas, em que os cuidados terapêuticos e o treino mental através da meditação activa, englobam uma componente mais espiritual, virada para a auto-reflexão e auto-conhecimento.

Objectivamente e fazendo uma análise à matriz técnica do Kung Fu, e tomando ainda como exemplo o sistema Choy Lee Fut *, neste momento o mais praticado no nosso pais, podemos descrever alguns vectores genericamente comuns a todos eles, que emprestam essa identidade tão característica às artes marciais chinesas.

Na cadeia natural do percurso de aprendizagem, a assimilação correcta das principais movimentações é fundamental, pois as posturas fixas, os passos dinâmicos, as diferentes técnicas dos membros superiores e inferiores constituirão as peças unitárias do puzzle que lentamente o praticante assimilará, e sobre as quais construirá todo o sistema. Como extensão natural destas movimentações e baseada na dinâmica dos movimentos assimilados, a aprendizagem prossegue com diferentes tipos de armas (bastão, espada, sabre, etc.) prolongamentos das técnicas de boxe, que se bem a sua utilização real esteja desenquadrada com a sociedade contemporânea, servem como instrumentos de desenvolvimento de qualidades físicas e técnicas específicas que só as mesmas podem proporcionar. Na impossibilidade dos conhecimentos adquiridos serem aplicados com os parceiros de treino, de forma a fundamentar a lógica marcial do sistema, recorre-se à utilização de bonecos de madeira, desenhados de maneira a permitir um contacto total, simulando situações reais de acordo com acções específicas a desenvolver. Esta tradição tem a sua origem no templo de Shaolín, e o Choy Lee Fut representa um pouco este estereótipo, uma vez que desenvolveu 18 destes bonecos, cada um deles desenhado para fins específicos.

Nesta fase da aprendizagem, encontram-se cobertas as quatro grandes áreas de intervenção técnica, nomeadamente técnicas de pernas (Ti), técnicas de braços (Da), técnicas de imobilizar (Na) e técnicas de projectar (Shuai); a exercitação no combate livre é agora uma dilatação natural do percurso do praticante.

O aprofundamento nos aspectos mais avançados do sistema, estará reservado aos alunos mais antigos, que efectuarão um cerimónia clássica e tradicional conhecida como Bi-Si onde, na presença de várias testemunhas, manifestarão a lealdade para com o mestre (Sifú) e o sistema.

 

O Kung Fu em Portugal

Comparada com outras artes marciais, o Kung Fu em Portugal é um fenómeno relativamente recente, tendo surgido no início da década de 90 as primeiras escolas desta actividade. O sistema Choy Lee Fut sobre o qual se faz alusão neste artigo, foi o primeiro a instalar-se no nosso país em meados dos anos 80, muito anos de se dar início a esta onda relacionada com as artes marciais chinesas. É também aquele que neste momento se encontra mais expandido no nosso território e que possui uma intervenção de âmbito nacional com o exercício de diversas actividades relacionadas com o treino, a formação e a competição. Em finais dos anos 90, foi fraccionada a prática deste sistema em duas vertentes, uma relacionada com a arte de luta propriamente dita e a outra com o Chi Kung e a sua especialização, o sistema Lohan, que devido à riqueza e profundidade dos seus conteúdos, rapidamente se tornou um dos mais praticados e requeridos pelos portugueses.

Crianças e adultos de ambos os sexos e todas as idades, podem hoje desfrutar da prática de uma actividade salutar e rica na sua oferta, optimizando os conteúdos às necessidades dos seus objectivos, sejam eles lúdicos, desportivos, terapêuticos ou de outra natureza, pois a diversidade e riqueza da arte oferece uma elasticidade que se adapta facilmente a qualquer pessoa.

Hoje, se bem que Vajranara não apadrinhe nem observe com o seu olhar feroz as academias modernas de Kung Fu, o simbolismo do seu espírito permanece entre todos os entusiastas da modalidade, inspirando e motivando os seus praticantes na procura da excelência, da elevação espiritual e do auto-conhecimento, através de um caminho abraçado por gerações infindáveis de conhecedores: o caminho do guerreiro.

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