Entender o Chi Kung

O Lohan Chi Kung, fazendo parte do Choy Lee Fut, mas no entanto podendo ser aprendido como um sistema independente e sendo de facto esta a tendência actual, engloba um conjunto de exercícios que utiliza o movimento e o controle da respiração, para manipular e estimular a circulação do Chi ao longo dos meridianos do corpo, cultivando internamente o Jing, Chi e Shen e construindo simultâneamente um corpo forte e saudável.

 Lohan Chi Kung, auto-regulação do corpo físico e energético

Quando Chan Heung terminou os seus estudos de Kung Fu Shaolin com o monge Choy Fook, fazia parte do vasto leque de conhecimentos, um estranho conjunto de formas, exercícios e teorias, executados de forma lenta, harmoniosa, fluida e contínua. Tal conjunto de exercícios, mais não era que um subsistema completo de desenvolvimento e regulação das energias do homem e da sua relação com o meio envolvente. Denominado de Lohan Chi Kung, é composto por uma série complexa de exercícios, a solo ou reunidos em sequências, apoiados em aspectos teóricos da Medicina tradicional Chinesa e conceitos filosóficos milenares.

Para o praticante sério de Choy Lee Fut, o Lohan Chi Kung é a chave para o progresso nas técnicas avançadas. Com o nível primário o praticante trabalha principalmente os aspectos físicos do Kung Fu, relacionados com músculos, tendões e ossos, fortalecendo fisicamente o corpo. A progressão para um nível superior, exige a união da mente e espírito, ao corpo,  num todo integral em perfeita harmonia. Só o “trabalho interno” Nei Kung, permitirá o alcance desta união, através do trabalho doChi, a nossa força vital intrínseca.

Na sua forma original, o Lohan Chi Kung é um conjunto interno de exercícios para cultivar os “três tesouros”: Chi (energia vital), Jing (essência), e Shen (espírito). Praticado com regularidade, activa o fluxo de energia interna vital intrínseca ao longo dos meridianos, fortalece os órgãos internos, mantém o vigor do corpo e da mente, exercita as articulações dos músculos e tendões, previne doenças por stress físico, fomenta a consciência postural, e proporciona a essência e base para a prática das artes marciais externas.

Sem entrar nos aspectos esotéricos, por vezes incompreensíveis, desta arte, o trabalho do Chi Kungé sobretudo um trabalho de auto-regulação:

  1. Auto-regulação da respiração
  2. Auto-regulação da mente
  3. Auto-regulação da postura corporal

Este trabalho de auto-regulação é efectuada sobre o corpo físico (estrutura músculo-esquelética e órgão internos) e sobre o corpo energético, utilizando para tal um conjunto de exercícios:

  1. Exercícios com bastão
  2. Exercícios de respiração
  3. Mãos Unicórnio
  4. Posturas sentadas
  5. Exercícios com passos
  6. Teoria médica
  7. Pa Kwa Kung Fu

E formas:

  1. Sap Ba Lohan Kuen (18 Mãos de Buda)
  2. Siu Lohan Kuen (Pequeno Buda)
  3. Dai Lohan Kuen (Grande Buda)
  4. Gau Gung (Nove Palácios)
  5. Tai Kit Kuen (Punho do Supremo Último)
  6. Kei Lung Sau (Mãos Unicórnio)
  7. Wu Chi (Grande Vazio)

Para o trabalho e desenvolvimento desta auto-regulação, permitindo o fluxo e equilíbrio do Chi ao longo dos meridianos, o trabalho fundamental é efectuado sobretudo com a ajuda das quatro formas internas. Três delas utilizam exercícios em movimento e a restante posturas estacionárias.

  1. Sap Ba Lohan Kuen (18 Mãos de Buda) – esta forma, a primeira do conjunto, utiliza movimentos largos, em extensão (extremos Yin e Yang), para a circulação do Chi. É a sua forma de expressão mais externa, no entanto o corpo mantém-se relaxado e leve, fortalecendo músculos e tendões e aumentando a sua flexibilidade.
  2. Siu Lohan (Pequeno Buda) – tem movimentos mais suaves e circulares, executados de uma maneira fluida, com ênfase na respiração (mais que no movimento corporal) para gerar a circulação do Chi. Incorpora posturas estacionários em diferentes passagens, segundo o princípio “da quietude nasce o movimento e do movimento cultiva-se a quietude”.
  3. Dai Lohan (Grande Buda) – esta terceira forma (na realidade um conjunto de exercícios),  realiza-se na posição sentada, com as pernas cruzadas, exercitando os braços em diferentes “mudras”. A mente, centraliza e controla o Chi nos diferentes pontos ao longo do eixo central do corpo, utilizando para tal os meridianos JenMai  e TuMai.
  4. Wu Chi (Grande Vazio) – combina a habilidade das outras três formas anteriores, com intenção marcial. Os movimentos são fluidos e suaves, o corpo relaxado e leve. A quietude da mente funde-se com o movimento do corpo, numa alternância de velocidade rápida e lenta. É um reflexo da dança cósmica da criação, onde o Yin e Yang, os opostos universais, interactuam para formar os mil fenómenos e entidades do universo. Combina as duras habilidades físicas da luta com a suave concentração mental e a circulação do Chi, sendo considerada uma das formas mais avançadas do Choy Lee Fut.

É uma tarefa que fica aquém das expectativas, descrever em meia dúzia de páginas, toda a estrutura de um sistema, construído durante uma vida e aperfeiçoado ao longo de gerações: fica a sensação de que algo ficou por dizer, de que ficará sempre alguma coisa por dizer. Porém, um pequeno texto como o apresentado neste artigo, situará contudo o leitor, dando uma ideia da complexidade deste extraordinário sistema de Kung Fu, e das suas múltiplas conexões históricas e culturais.

 

“  Quanto tempo levarei a tornar-me mestre?

Levarás 5 anos até saberes alguma coisa;

Mais 5 anos para perceberes que já sabes alguma coisa

Outros 5 anos para perceberes que afinal não sabes nada.