A evolução dos desportos de contato chineses

Em 1928 governava a China o Kuomitang, tendo a República da Chinasido formada à pouco mais de uma década. O Kuomitang foi um grande promotor das artes marciais chinesas e do espírito nacional que estas promoviam, uma característica algo cara aos chineses depois de séculos de controle por forças estrangeiras, primeiro os Manchús e posteriormente as potências ocidentais, com a consequente perda da auto-estima e orgulho nacional. Este espírito seria revitalizado com as novas políticas liberais do Kuomitang, partido Nacionalista, suportada na transformação da China ancestral para a modernidade e futuro. Seriam fundadas o Instituto Central de Nanjing e a Associação Atlética Chingwu com o alto patrocínio do partido e das suas elites militares, instituições que lançariam as bases do espírito de unificação e aglutinação das artes marciais tradicionais.

Após a vitória na guerra civil que opôs nacionalistas e comunistas durante a década de 40, estes, liderados por Mao Zedong (Mao Tsé Tung), acabariam por vencer e a 1 de Outubro de 1949 fundariam a actual República Popular da China, com a consequente fuga dos nacionalistas para Taiwan. Seria nesta ilha que o governo nacionalista manteria as antigas tradições, enquanto no continente os comunistas promoviam profundas alterações políticas e sociais baseadas no marxismo. A prática das artes marciais foi banida e os seus mestres confinar-se-iam à clandestinidade para assegurar o futuro dos seus métodos e sistemas, de forma a serem transmitidos às gerações seguintes de acordo com as tradições ancestrais, que a muito custo sobreviveriam a décadas de repressão.

Em Taiwan as mesmas proliferaram livremente, e em 1955 foi organizado um torneio sobre o Leitai em que, embora com a existência de regras específicas, os lutadores confrontavam-se sem limitações de peso e sem luvas, resultando frequentemente em narizes partidos e outras lesões similares. Em 1975 as estruturas desportivas de Taiwan organizaram pela primeira vez um encontro internacional denominado 1st World Kuoshu Championship Tournament, este já com divisões de peso. Mas somente em 1988 novas regras seriam adoptadas como a utilização de capacetes com grades e a inclusão de pequenas luvas, que permitiram uma maior segurança da prática do sistema de luta em cima do Leitai. As autoridades manteriam o nome de Guoshu (Arte Nacional) adoptado quando o Kuomitang governava no continente, e que hoje servem para diferenciar do sistema adoptado pelos chineses do continente, o Sanda.

No continente a prática das artes marciais para propósitos demonstrativos já era permitida na década de 70, e em Março de 1979 a China National Sport Committee (CNSC), uma comissão governamental, instruía algumas instituições para transformarem o Sanshou num desporto competitivo. Em 1982 surgiram as primeiras regras oficiais e em Outubro desse ano foi organizado o primeiro torneio oficial desta disciplina, surgindo assim uma nova modalidade competitiva, que ficaria conhecida por Sanda. Permitido originalmente o uso de cotoveladas e joelhadas, seriam posteriormente retiradas, quando em 1991 a International Wushu Federation (organismo que regulamenta a odalidade do Wushu) organizou o 1º Campeonato Mundial e estabeleceu internacionalmente as regras oficiais deste desporto.