Origens

Shuai JiaoHá mais de 5000 anos, duas tribos rivais estavam instaladas ao longo do rio Amarelo. Uma era dirigida por Huang Di (Imperador Amarelo) e a outra por Zhi You. Nesta, os guerreiros tinham a particularidade de utilizar um par de cornos colocados num capacete com a finalidade de trespassar o inimigo. Para enfrentar os seus vizinhos em batalha, Huang Di ensinou os seus guerreiros a evitar estes ataques e a desequilibrar os adversários.

De acordo com a lenda e graças a esta técnica, Huang Di derrotou os seus vizinhos e a partir dessa altura este acontecimento foi sempre celebrado recorrendo a uma dança em que uns imitavam os guerreiros de Zhi You colocando o capacete com cornos e os outros, imitando os guerreiros de Huang Di, procuravam desviar-se e derrubar os primeiros. A esta dança chamaram Jiao Ti Xi(角抵戏), representado a primeira manifestação de uma arte marcial chinesa a mãos nuas.

Referências a estas artes de luta são encontradas um pouco por todo o período histórico,  tendo inclusive como adeptos os próprios imperadores, evoluindo para uma sofisticado disciplina marcial, cuja expressão prática se cristalizava nos eventos competitivos bastante populares.

 

O período das dinastias

O Registo dos Rituais (Livro dos Rituais, Dinastia Zhou 1046-256 a.C.) um dos 5 Livros Clássicos, menciona um sistema de luta livre denominado Jueli ou Jiaoli (角力) que incluía ataques, projeções, manipulação de articulações e ataques a pontos de pressão. O Jiao Di torna-se desporto durante a dinastia Qin (221-207)  e a Bibliografia da História dos Han refere que no início desta dinastia existia uma distinção entre a luta sem armas chamado Shou Bo (手搏), sobre a qual existiam manuais escritos, e a luta livre desportiva conhecida como Jueli (角力).

Durante a dinastia Tang (618-907) as artes marciais florescem e atingem um dos períodos áureos da sua história. É por volta desta altura que os termos Shou Bo (手搏) e Xiang Bo (相扑) se afirmam, referindo-se a uma arte marcial que conecta técnicas de punho e pernas com agarres e projeções. Um famoso livro intitulado Jiaoli Ji (角力记) escrito no período das 5 dinastias (907-960) descreve com precisão todo o processo histórico, teorias e técnicas das artes marciais da época.

É no período Song (960-1279) que as mesmas atingem grande popularidade, e que são indiferentemente conhecidas como Shou Bo ou Xiang Bo. Servindo de espetáculo e entretenimento público e também como fonte de recrutamento dos melhores lutadores, estes enfrentavam-se numa plataforma elevada conhecida como Lei Tai (擂台), tendo muitas vezes como recompensa ser contratado como instrutor na Academia Imperial ou como guarda costas do Imperador ou figuras oficiais.

Nestas competições a vitória era obtida de acordo com um dos critérios:

  • Adversário caía ao chão
  • Adversário abandonava a luta (ferimento ou knock-out)
  • Adversário colocado fora da plataforma

As técnicas utilizadas enquadravam-se dentro de uma estrutura já planificada e elaborada, que normalmente pertenciam a uma das 4 declinações:

  • Da (打), bater com as mãos
  • Ti (踢), bater com os pés
  • Na (拿), imobilizações,  agarres e submissões
  • Shuai (摔), projeções

A partir da dinastia Yuan (1279-1368) o desenvolvimento e expansão do Shou Bo sofre uma interrupção em razão das invasões mongóis. Novos senhores da China após a conquista de todo o território, as artes marciais de percussão são interditas e somente as disciplinas de luta corpo a corpo são permitidas, sendo introduzida a sua variante das estepes – o Boke (搏克) – disciplina folclórica tradicional praticada pelos mongóis. As artes marciais de percussão são tão somente permitidas em demonstrações restritas do folclore chinês e na ópera. Não obstante estas restrições, certo é que continuavam-se a praticar na clandestinidade, embora a sua popularidade e acesso tenha decrescido consideravelmente.

É na dinastia seguinte, Ming (1368-1644), que as técnicas de percussão Da e Ti e diversas outras formas de boxe são reabilitadas e identificadas sob a denominação Quan Shu (拳术). Parece ser que neste período a expressão Shou Bo cai em desuso e a prática das artes marciais ramifica-se em dois ramos: por um lado o Xiang Bo, uma reinterpretação do Shou Bo, e por outro o Quan Shu, sistemas de boxe de percussão já com algumas conotações artísticas.

Na dinastia Qing (1644-1911) a luta livre torna-se bastante popular, entre os seus admiradores os imperadores Kangxi e Qianlong, que além de fervorosos adeptos, são praticantes entusiastas de uma variante denominada Shan Pu (善扑), criando um verdadeiro batalhão de lutadores conhecidos como Shanpuying (善扑管), alimentando-se das inúmeras correntes regionais existentes – chinesa, mongol, ouigor, tibetana, etc. – e integrando as particularidades mais interessantes de cada uma delas.

Por outro lado o Quan Shu, as disciplinas de percussão, continua a ser praticado pelo povo resultando numa multitude de sistemas, escolas e linhagens, em qe alguns incluiriam algumas técnicas de projeção dos sistemas clássicos de luta livre.

Estas disciplinas tornam-se oficialmente “desporto nacional” da China, em que por um lado temos o Shuai Jiao (摔跤), “desporto de combate”, e por outro o Quan Shu (拳术), “desporto de combate de demonstração”, funcionando como uma coreografia de artes marciais.

O século XX

Com o fim das dinastias Imperiais e a fundação da República da China (1912-1949) o conjunto das duas disciplinas é denominado de Guo Shu (国术) “Artes Nacionais”.

Seria com Bruce Lee que as artes marciais chinesas seriam lançadas no ocidente que passariam a ser conhecidas por Kung Fu, enquanto que na China o Shuai Jiao continuava a ser a base das artes marciais e desportos de combate, e praticamente desconhecida além fronteiras.

Nos fins da década de 70 do século passado, a China pretendia introduzir as artes marciais de combate nos jogos olímpicos, pelo que criaram para o efeito uma reorganização das luta com o boxe (Shuai Jiao com Quan Shu) e uma nova disciplina nasceu: o Sanda (散打).

Na realidade, e porque até aqui as artes marciais de percussão só eram permitidas como demonstração, em Março de 1979 o Centro de Treinos Desportivos Provinciais de Zhejiang, a Universidade de Educação Física de Beijing e o Colégio de Educação Física de Wuhan foram apontados pelo Comité Nacional de Desporto Chinês para transformar o Sanshou (散手) num desporto de competição. Os trabalhos tiveram como resultado a criação das 3 primeiras equipas de Sanda daquelas instituições, tendo surgido outras equipas no ano seguinte. As primeiras regras oficiais acabariam por surgir em janeiro de 1982 e 10 meses depois, Novembro de 82, a primeira competição oficial. A área original consistia numa plataforma circular elevada com 9 metros de diâmetro, tendo posteriormente sido alterada para o Lei Tai quadrado tradicional.

Hoje o Sanda subsiste como a mais popular forma de combate das artes marciais chinesas (ou desporto de combate) tendo a sua génese nas artes marciais tradicionais (Quan Shu) e na luta livre corpo a corpo (Shuai Jiao) desenvolvida ao longo dos períodos históricos. A espetacularidade do Sanda deve-se contudo às suas contundentes e eficazes técnicas de projeção do Shuai Jiao, reafirmando a sua importância na matriz não só desta disciplina de combate, como em quase todas as artes de percussão hoje conhecidas.

O Shuai Jiao continua a ser uma das disciplinas mais populares na China, não tendo perdido a sua popularidade e importância cultural, sendo valorizada da mesma forma como em tempos ancestrais. Começa a ter cada vez mais seguidores em todo o mundo, sendo já bastante conhecido em países onde as artes marciais estão fortemente implantadas.

Na Europa é graças ao trabalho pioneiro do mestre Zumou Yuan radicado em Paris desde os anos 80 que estas se tornaram conhecidas, e é ainda graças a ele que continuam a ser cada vez mais conhecidas, embora já existam de facto outros técnicos que hoje continuam o trabalho de divulgação de uma das artes mais antigas que se conhece.