Origens

Chen Bu, segundo consta da tradição da família Chen, seria o primeiro patriarca do clã Chen, instalando-se com a sua família numa pequena povoação na província de Henan, a norte do rio Amarelo onde trabalharia como agricultor. Originalmente, esta pequena povoação denominava-se Changyang, mas devido à perícia de Chen Bu nas artes marciais, e ao facto de ter dominado delinquentes que assolavam a região, os aldeões passaram a denominar a sua povoação de “Vale da Família Chen”, Chenjiagou. Segundo se crê, fundaria na aldeia uma escola de artes marciais que se tornaria uma característica do clã Chen, ensinando o que havia aprendido em Shanxi, província da qual era originário.

Podemos assim encontrar em Chen Bu as sementes de uma tradição marcial no seio da família Chen, mas seria com Chen Wangting, 9a geração, que se assistiria ao nascimento do que se tornaria as bases do sistema Chen de Taijiquan. Chen Wanting nasceu no ano 1600, no reinado do Imperador Wanli (1573-1620); o seu avô, Sigui, era Dianshi, uma posição no ranking oficial estabelecida durante a dinastia Yuan com funções de policiamento e controle de impostos. O pai, Fumin, detinha também ele uma posição de relevo, tendo sido atribuído por édito imperial o título de Zhengshilang. Chen Wanting era o quarto filho de Fumin, e desde tenra idade que dividia o seu tempo entre a instrucção nas artes marciais e o estudo de literatura, tendo adquirido muito novo uma maestría considerável e uma educação de alto nível. Mais tarde obteria o título de Xiangsheng passando nos exames imperiais ao nível do condado, propondo-se de seguida em efectuar os exames Wuju (exames provinciais). No entanto, num incidente durante os exames, Chen Wangting mataria uma pessoa, fugindo de seguida e refugiando-se em Dengfeng juntando-se ao rebelde Li Jiyu, que havia liderado um pequeno levantamento contra o Imperador. Posteriormente, regressaria à sua aldeia natal, onde saberia que Li Jiyu havia sido capturado e condenado à morte.

Um dos colaboradores de Li Jiyu, Jiang Fa, acabaria por solicitar refúgio na aldeia dos Chen, tendo sido acolhido por Wang- ting. Iniciar-se-ia uma relação duradoura de amizade com um intercâmbio constante de experiências marciais com Jiang Fa, um perito nas artes de combate, sendo o seu nome referido frequentemente em alguns registos. Deste intercâmbio e das experiências acumuladas, Chen Wangting reformularia o sistema de boxe da sua família, criando sete rotinas e transformando-as na base do sistema. Destas sete rotinas, cinco eram de Taijiquan, uma de Boxe Longo (sequência de 108 movimentos) e outra do Punho Canhão. Incluiria ainda o manejamento de algumas armas tradicionais, bem como exercícios de encadeamento a dois conhecido como Tuishou ou mãos que empurram. A influência de Shaolin na criação e reestruturação destas rotinas é notória (o Templo de Shaolin encontra-se a escassos 70 kms de Chenjiagou) assim como se nota influências do método elaborado pelo General Qi Jiguang, conforme se pode confirmar pela semelhança com algumas posturas do livro Jixiaoxinshu (Novo Livro de Técnicas de Escolas Diferentes) da autoria deste último. Adicionalmente, Chen Wangting adicionaria um conjunto de teorias da medicina tradicional baseando-se no Huang Di Nei Jing (Cânone do Imperador Amarelo de Medicina Chinesa) e outros clássicos contemporâneos, adaptando termos e conceitos aos seus exercícios. Nasceria assim o sistema Chen de Taijiquan, chamado por Wangting “Sistema da Regra Original” (o termo Taijiquan seria utilizado muito mais tarde).

Dos conceitos introduzidos no sistema destaca-se a teoria e filosofia Yin Yang, técnicas de Daoyin de direccionamento da energia, a teoria dos meridianos (Jingluo) e dos caminhos circulatórios da energia no corpo, a teoria Jingmai de acunpressão. Estes novos conceitos introduzidos marcaram historicamente a diferença, transformando um vulgar método de luta, num sofisticado e novo conceito de arte marcial, que se perpetuaria no tempo através das gerações seguintes.

Chen Wangting passaria o resto da sua vida ocupado entre os afazeres do campo, a leitura de velhos clássicos e o ensino do seu sistema de combate aos jovens do clã Chen. Faleceu com 80 anos de idade, deixando um legado aos seus descendentes que o transmitiriam de geração em geração no seio restrito da sua família.

 

Reestruturação do sistema de Chen Wanting

Talvez o mais conhecido professor da família Chen seja Chen Changxing (1771-1853), 14a geração, não só por ter sintetizado o sistema criado pelo seu antepassado Chen Wangting, condensando as sete rotinas originais em apenas duas (Yi Lu e Er Lu) e chamado posteriormente de Laojia (Velha Estrutura), mas também por ter ensinado a Yang Luchan, a primeira pessoa fora do clã a receber instrucção nos métodos de luta da família Chen e que fundaria mais tarde o seu próprio sistema, conhecido como Yang.

Na mesma altura, Chen Youbeng, também ele 14a geração, iniciou o desenvolvimento de uma nova corrente conhecida como Xinjia (Nova Forma), ficando gradualmente conhecida como Xiaojia (Pequena Forma), estando eventualmente na origem do sistema Zhaobao e Hulei, de forte influência Chen, mas não considerados como pertencentes à linhagem da família Chen.

 

O século XX

No início do século XX, a escola Yang tinha uma popularidade que se estendia a grande parte do país, enquanto o sistema Chen se encontrava circunscrito à pequena aldeia de Chenjiagou. Tudo isso mudaria com Chen Fake (1887-1957) e seu sobrinho quando, em 1928 e rompendo com a tradição secular da família, foram para Beijing e iniciaram o ensino do Chen Taijiquan de forma aberta a membros fora da família. A sua influência em Beijing foi de tal forma acentuada em que ainda hoje, através dos seus discípulos, existe um corrente conhecida como método de Beijing centrada à volta da variante Nova Forma (Xinjia), baseada na velha escola de Chenjiagou. Quando o seu filho, Chen Zhaokui regressou a Chenjiagou para assistir e depois suceder a Chen ZhaoPei, introduziu esta nova variante no ensino local, reestruturando e reabilitando o Chen Taijiquan que por volta dessa altura se encontrava em decadência, ensinando o velho e o novo método à geração seguinte, da qual fazem parte os “Quatro Budas” (Chen Xiaowang, Chen Zhenglei, Wang Xian and Zhu Tiancai).

Esta Nova Forma (Xinjia), pese o facto de manter o mesmo corpo técnico constituído por Yi Lu e Er Lu, distingue-se da Velha Forma (Laojia) pelas características dos seus movimentos, mais pequenos mas requerendo mais rotações do corpo, em que os giros dos pulsos e braços são bastante mais acentuados; enfatiza, por outro lado, o uso de técnicas de agarre e imobilização (Chin Na) como alternativa aos métodos de ataque directos utilizados na Velha Forma. Hoje em dia, os dois métodos tendem a ser ensinados, começando o praticante pela Velha Forma com Yi Lu e Er Lu, passando posteriormente para Yi Lu e Er Lu da Nova Forma.

Outro facto marcaria o século XX com a publicação da primeira obra acerca do Chen Taijiquan, da autoria de Chen Xin (1848-1929, conhecido também por Chen Pinsan) e intitulada “Explicações Ilustradas do Taijiquan da família Chen”, no original Chen Shi Taijiquan Tushuo. Chen Xin, era neto de Chen Youheng (irmão de Chen Youbeng que criou a escola Xia- ojia) e filho de Chen Zhongshen, um famoso boxeador conhecido pela utilização de uma lança de 30 libras nos campos de batalha e pela sua enorme coragem frente a inimigos. Desde cedo começou a prática nas artes da família, mas nunca haveria de conseguir a maestria que seu irmão Chen Yao possuía. Com sentimentos de culpa em relação aos seus níveis de Kung Fu, decidiu escrever um livro expondo os princípios do sistema Chen de Taijiquan, que lhe levaria 12 anos a escrever, num total de 4 volumes contendo entre 200 a 300 mil caracteres. Todo o sistema está descrito neste livro, que se fundamenta essencial- mente no Livro das Mutações (Yijing), mas descreve toda a subtileza da filosofia yin Yang aplicada aos movimentos, a teoria dos meridianos, as aplicações de todas as posturas do sistema e um explicação detalhada das mesmas, constituindo a energia espiralada, a força interna (neijing) e a “Tecedura da Seda”, o coração do livro. O livro acabaria publicado em 1933, 4 anos após o seu desaparecimento. Esta é a mais importante obra acerca do sistema Chen publicada até hoje, não só pela exposição exaustiva de um sistema secular que originou todas as escolas de Taijiquan contemporâneas, mas pela descrição dos aspectos fundamentais da essência do sistema, embora por vezes não se consiga penetrar nos meandros do pensamento do autor, quando o mesmo viaja pelas teorias do Yijing.

 

O Chen Taijiquan hoje

Após Chen Wangting, houve muitas gerações de grandes mestres do sistema. Alguns atingiriam uma elevada maestria, outros, poucos, assentariam as suas ideias em elaborados livros e outros expandiriam a arte da sua família ao resto do mundo transformando-o num fenómeno universal. Do universo destes grandes mestres, destacam-se os da 18a geração, Chen Zaokui, Chen Zaopi, Chen Ke Zhong e Wang Yan; Chen Zaopi regressaria a Chenjiagou onde faria renascer o Chen Taijiquan ensinando às gerações que difundiriam o Chen a nível mundial; Chen Ke Zhong, perito em Xiaojia, transmitiria os seus conhecimentos a esta nova geração que viria ainda o seu curriculum enriquecido com os ensinamentos da Nova Forma (Xinjia) por Chen Zhaokui, filho de Chen Fake. Desta nova geração, 19a, que receberia os conhecimentos de várias tendências, destaca-se Chen Xiaowang, Chen Zhenglei, Wang Xian and Zhu Tiancai, chamados os 4 Guerreiros de Buda, Si Da Jin Gang, os mais conhecidos mestres da atualidade.

Hoje, paralelamente à prática das várias correntes desenvolvidas em Chenjiagou, surgiram novos métodos, novas rotinas, novos sistemas; desde as rotinas criadas pela Chinese Wushu Association, passando pelas rotinas de mestres conhecidos, elaboradas para uma mais fácil aproximação à arte do Chen Taijiquan, até ao surgimento de métodos menos conhecidos, como os sistemas Zhaopao ou Hulei. Recentemente, apareceram mestres de Chenjiagou ou aldeias próximas com rotinas esquecidas no tempo, como a de 108 movimentos original de Chen Wangting, entre outras. Hoje a oferta é variada, causando paradoxalmente uma grande confusão na hora da escolha, dada a proliferação de métodos, mestres, escolas, etc., sendo necessário uma pesquisa adequada e a procura de fontes fiáveis, para não se ingressar por uma escolha falaciosa e enganadora, como tantas vezes acontece.

Se até agora as diversas escolas Yang ocupavam quase todo o universo da expansão mundial (iniciada com Chen Manqing nos anos 50 nos Estados Unidos), esta situação tende agora ser um pouco mais equilibrada, com a divulgação da escola Chen à mesma escala. Até em Portugal, país habituado a assistir à tardia implementação destas disciplinas, o sistema Chen se encontra relativamente divulgado e representado por organizações ou instrutores credíveis, embora, face à popularidade do sistema Yang, os pratos da balança se encontrem bastantes desequilibrados.