Shaolín e as raízes do Choy Lee Fut

by Rollyn / 07 Maio 2013 / No Comments

 

Considerado um dos mais populares e sofisticados métodos do amplo espectro das artes marciais chinesas, o Choy Lee Fut é na realidade muito mais do que um sistema de combate e defesa pessoal; é um ponto de chegada dos conhecimentos ancestrais dos monges de Shaolín, e o início da longa caminhada da auto-disciplina e do auto-conhecimento…

 

O sistema Choy Lee Fut Kung Fu é, inegavelmente, um dos métodos de luta chinesa mais conhecidos actualmente. Esta popularidade é consequência das suas características estruturais, que vão mais além de um eficaz método de luta e defesa pessoal. A complexidade das diferentes valências que o compõem transformam-no numa disciplina elaborada de auto-cultivação física, mental e espiritual, na realidade um produto característico da milenar cultura chinesa, composto na sua essência pela absorção de diversos métodos de luta característicos do período Qing tardio provenientes de Shaolín, mas também por exercícios ginásticos Taoistas e Budistas que absorveram as antigas técnicas de daoyin e tun na, transformando-se num elaborado sistema de Qigong (Lohan Qigong) que combina exercício, auto-massagem, respiração e circulação do fluxo energético (Qi), bem como um conjunto de teorias e práticas médicas da Medicina Tradicional Chinesa (MTC).

Adicionalmente, o enquadramento filosófico orientado pelas seculares filosofias, cosmologias e tradições populares, conferem a este sistema um estatuto distinto, em que o termo “marcial” acaba por ter uma conotação errónea, sendo antes um método de auto-cultivação com grande relevância terapêutica e profundo significado filosófico, que cobre diversas áreas do conhecimento humano e em que a luta é apenas um dos aspectos a considerar.

No entanto, deixaremos de lado toda esta versatilidade e multidisciplinaridade, para nos focar no sistema enquanto arte de luta, inequivocamente um dos aspectos de atracção que tornaram este método tão popular.

 

Breve resumo histórico

O Choy Lee Fut é, na realidade, um produto directo de Shaolín Si (Sil Lum)e dos métodos desenvolvidos e praticados dentro destes mosteiros budistas. Não é um método integrado nas diferenciadas disciplinas do boxe de Shaolín tal qual se entende actualmente, mas sim o resultado da confluência de vários desses métodos do período Qing, ensinados a Chan Heung pelos seus tutores, hábeis na arte do boxe dos monges guerreiros. Transformou-se posteriormente numa arte de âmbito familiar, registada pelo fundador e sua descendência numa colecção de manuscritos (Kuen Po, a Arte do Punho), transmitida de geração em geração e chegando aos nossos dias de forma intacta e preservada, pela mão do tetraneto do fundador, o mestre Chen Yong Fa.

Podemos então alinhar as origens do método de luta do Choy Lee Fut com a própria história do boxe de Shaolín e seu enquadramento histórico, cultural e social, legitimando e reivindicando estas origens como as fundações da própria génese do sistema, afastando-nos do actual arquétipo de manipulação do termo Shaolín para fins meramente comerciais.

Choy Fook, de acordo com os registos da família Chan e tradições orais das diversas linhagens de Choy Lee Fut, foi um monge budista Shaolín que se retirou no fim da sua vida para as montanhas Law Foo (diz-se que perseguido pelas tropas imperiais Qing), na província de Guangzhou, na transição dos séculos XVIII e XIX. Seria aí que Chan Heung, já um exímio artista marcial, se tornaria seu discípulo e com ele treinaria 12 anos, absorvendo os conhecimentos transmitidos pelo já idoso monge. Posteriormente, e já de volta à sua aldeia natal, fundaria o sistema Choy Lee Fut por volta de 1836 (também conhecido por Choy Lay Fut, Tsai Li Fo, etc.), uma síntese elaborada a partir das transmissões dos seus três mestres, todos eles de alguma forma conectados com o boxe de Shaolín.

Rapidamente o sistema adquiriu prestígio e popularidade, tornando-se um dos métodos mais praticados nos sul da China e nas colónias de Macau e Hong Kong, tendo posteriormente conhecido algumas evoluções que resultariam no surgimento de diversas linhagens e outras tantas variações.

Destas, a linhagem original Hung Sing da família Chan (descendente do fundador) foi das que mais prestígio granjeou, muito graças ao trabalho do primogénito da 5ª geração, o mestre Chen Yong Fa, que desde finais dos anos 80 promove a arte da sua família a uma escala global, com escolas e representações em mais de vinte países, sendo Portugal um deles.

Preservada no seio familiar durante gerações como um tesouro raro e precioso, a arte do Choy Lee Fut tal qual foi criada originalmente foi tornada pública pela mão deste mestre aos seus discípulos mais chegados, revelando aspectos menos conhecidos da mesma e exibindo toda a sua riqueza e profundidade, condensada nos registos da família sob a forma de manuscritos, que cobrem os diferentes aspectos do sistema, preservando conhecimentos que remontam a tempos antigos e nos levam directamente a Shaolín, e aos métodos de boxe nessa altura praticados.

 

A face invisível do Choy Lee Fut

Invariavelmente, e seja qual for a linhagem considerada, existem determinadas características que identificam o sistema de forma clara e inequívoca: movimentações rápidas, fluidas e contínuas, técnicas circulares encadeadas e de largo alcance, manifestação particular da força de forma explosiva e elástica (Ging). Combinações peculiares específicas do sistema, repetem-se periodicamente ao longo de uma série de formas (Kuen) comuns às diferentes linhagens, bem como a inclusão de uma quantidade considerável destas formas no currículo do sistema, executadas a solo ou com um parceiro, com ou sem armas. A prática de um ou dois bonecos (normalmente o saco de areia Sa Bao Jong e o boneco de madeira Chin Jong), a utilização de variadas armas a solo ou sob a forma de combate a dois, complementam de forma generalizada os aspectos mais conhecidos do grande público e da esmagadora maioria de praticantes e instrutores deste sistema, independentemente da linhagem.

E é precisamente neste ponto que se dá a grande diferença da linhagem da família Chan dirigida pelo mestre Chen Yong Fa, em relação a todas as outras: os conhecimentos transmitidos pelo monge Choy Fook, reservados somente a membros praticantes da família e discípulos dedicados.  Estes conhecimentos contêm o que de mais precioso e belo existe num sistema desta natureza, cobrindo sinteticamente as seguintes disciplinas:

  • Boxe dos 10 animais (Dragão, Tigre, Leopardo, Cegonha e Serpente, bem como Elefante, Macaco, Cavalo, Veado e Leão)
  • Boxe curto, cobrindo as áreas do Cum Na, projecções, imobilizações, etc.
  • Conjunto de teorias e princípios relacionadas com o combate
  • Bonecos de madeira avançados
  • Dim Mak
  • Lohan Chi Kung avançado
  • Feng Shui
  • Estudo de Dit Da, MTC e outros aspectos teóricos relacionados com estas áreas

Nesta fase, e quanto à arte de luta, nota-se claramente a introdução de diversos subsistemas (que provavelmente formariam parte do currículo avançado de Shaolín) integrados entre si de forma harmoniosa e complementar, cimentados pela forte estrutura basilar do sistema.

O domínio funcional de todos estes aspectos e variedade técnica, exige uma dedicação e um compromisso com a arte que só faz sentido quando esta é assimilada como um método integral de auto-realização física, mental e espiritual, e em que o aspecto marcial da mesma nada mais é que degrau na escalada do auto-conhecimento e da realização pessoal.

 

A abordagem do combate

Um dos aspectos mais interessantes do Choy Lee Fut como arte de luta per se, é a forma como aborda o combate, a peculiaridade das aplicações técnicas e do conjunto variado das suas teorias, que cobrem determinados vectores técnicos, estratégicos, tácticos e psicológicos.  Pese o facto do Choy Lee Fut possuir no seu currículo quase duas centenas de formas, é um dos sistemas tradicionais que mais ênfase dá ao combate, seja na sua modalidade de treino ou na sua forma mais livre.

Em combate, as suas acções desenvolvem uma identidade muito própria, inerente à essência do próprio sistema, não sendo necessário fundamentar o seu método de luta no Sanda, à semelhança de praticamente todos os sistemas de Kung Fu tradicional, pelo menos da forma como são ensinados no ocidente. A ampla gama de variações técnicas que este sistema possui, permitem intervenções nas quatro áreas clássicas dos sistemas chineses: Da (ataques de mão), Ti (ataques de perna), Shuai (projectar) e Na (imobilizar).

Tradicionalmente, a abordagem ao combate livre só é efectuada após o domínio dos fundamentos do sistema, em que a mobilidade postural, a desenvoltura técnica de braços e pernas, a apresentação de índices satisfatórios de velocidade e potência, bem como alguns conhecimentos estratégicos e psicológicos, apresentem um balanço equilibrado e uma apreciação positiva aos olhos do instrutor, por parte do praticante.

Inicialmente, um trabalho de preparação é efectuado de acordo com o currículo do sistema, em que as aplicações tradicionais ocupam lugar de destaque, seja com um companheiro de prática, seja em aparatos próprios para o desenvolvimento das necessárias aptidões. Numa segunda fase, estudam-se e treinam-se técnicas e movimentações mais livres dos conceitos tradicionais, em que a própria aptidão natural do praticante, as características da sua personalidade e o empenho e dedicação ao treino, determinarão o seu percurso e habilidades como lutador.

De forma prática, o desenvolvimento na arte do combate livre faz-se com contacto total, e utilização de equipamento de segurança que protege cabeça, tronco e membros, permitindo a utilização de praticamente toda a variedade técnica do sistema além de oferecer as vantagens de protecção da integridade física dos praticantes, um aspecto sempre a ter em conta por qualquer instrutor responsável, e uma das prioridades da instrução do mestre Chen Yong Fa.

Tun (absorver), Tol (expandir), Sim (evadir) e Bai (cobrir), formam os quatro conceitos fundamentais que todo o praticante sério de Choy Lee Fut deverá interiorizar para compreender toda a dinâmica de luta do sistema, complementado por outros conceitos como Pakwa Sau (mãos Pakwa), Oi Moon Cub Noi Moon (portas externas e portas internas), Sam Din (três pontos), etc., entre outros. Estes conceitos teóricos mais não são do que princípios sofisticados de luta, que segmentam para fácil assimilação tanto os aspectos técnicos e estratégicos, morfológicos e fisionómicos, bem como tácticos e psicológicos, fruto da experiência de gerações de experts e mestres quando a luta era uma questão de vida ou de morte, muitas vezes adquirida no próprio campo de batalha.

 

O Choy Lee Fut em Portugal

A Wing Sing Tong Portugal é a organização que representa, promove e organiza o sistema Choy Lee Fut da família Chan no nosso país. É dirigida pelo chefe instrutor Rolando Martins, discípulo à porta fechada do mestre Chen Yong Fa, tetraneto do fundador e actualmente considerado o guardião do sistema da sua família.

Rolando Martins introduziu este sistema em Portugal em 1984, com a particularidade de ser o primeiro a ser implementado no nosso país. Cerca de 25 anos depois, a modalidade é a única que conta com um corpo de instrutores e escolas um pouco por todo o pais, e com uma actividade fervilhante entre estágios e workshops, formações contínuas, competições desportivas e viagens organizadas à República Popular da China.

 

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