O caminho da longevidade

by Rollyn / 08 Maio 2013 / No Comments

A sabedoria chinesa faz hoje parte do patrimônio cultural universal, uma dádiva dos ancestrais conhecimentos clássicos da china imperial. Polidos e lapidados por séculos de história, modalidades como o Tai Chi e Chi Kung oferecem-nos hoje a possibilidade de usufruirmos de uma vida mais saudável e longa, direcionada para as profundezas da natureza humana e da sua relação com o meio envolvente.

 

A sabedoria ancestral

D os rudimentos dos primeiros exercícios de Dao Yin (respectivamente e de forma literal dirigir, guiar ou conduzir e estender, esticar) e de técnicas psico-físicas dos monges budistas e daoístas, até aos mais recentes métodos de Taijiquan (Tai Chi Chuan) e de Qigong (Chi Kung), fundamentados nas teorias da Medicina Tradicional Chinesa e da filosofia funcional que dá corpo a esta, o ocidente mergulhou nas profundezas desta mágica cultura metafísica absorvendo a quinta-essência da sua natureza, e compreendeu que milhares de anos de evolução lapidaram brilhantemente um conceito de vida singular, baseado na introspecção, na prática do exercício físico como motor de uma saúde reforçada, no aumento da vitalidade, na melhoria da qualidade de vida e do prolongamento desta, na relação com o mundo envolvente e sua integração cosmológica.

Estes exercícios psico-físicos orientais de tendências holísticas, cuja prática devolve ao praticante uma agradável sensação de paz, harmonia e bem estar, surgem através de um processo evolutivo muito característico, resultando da mistura de concepções e metodologias ancestrais, formando na globalidade um conceito generalizado da arte de nutrir a vida (yangsheng) e cujas origens remontam à profunda e antiga china imperial.

É dos inícios da dinastia Han (206 A.C. – 8 D.C.) a descoberta dos primeiros manuscritos médicos detalhados que relacionam medicina e técnicas de longevidade. Nos túmulos de Mawangdui na província de Hunan (centro sul da China), tiras de madeira, bambu e seda, chegaram até nós com os seus textos e desenhos praticamente intactos, onde se pode observar as preocupações dos antigos chineses com a saúde e longevidade, numa época em que as precárias condições de vida não permitiam uma grande prolongamento desta.

Se até então as especulações filosóficas Daoístas com o culto da imortalidade e as técnicas mágicas xamânicas dos Fangshi constituíam o núcleo das “linhagens de cultivação interna” preocupadas com as questões da existência terrena e do divino, elas divagavam também por terrenos metafísicos incompreensíveis para a maioria da inculta população. A descoberta dos manuscritos de Mawangdui, se bem que debruçando-se sobre o mesmo tema da imortalidade e transcendência, revela-nos uma preocupação prática e de fácil interpretação sustentada em conceitos médicos e não tanto na elevação espiritual ou culto religioso. Os textos destes manuscritos descrevem cuidados básicos de saúde e higiene, medidas profiláticas e de prevenção, recomendações de dieta e práticas sexuais, técnicas de respiração e exercícios físicos, entre outros temas, vindo alguns deles a tornar-se dominantes no Huangdi Neijing (Cânone Interno do Imperador Amarelo) uma publicação clássica com mais de dois mil anos, que se tornaria numa das referências da medicina tradicional chinesa.

Nesta obra, uma compilação de perguntas-respostas sobre medicina chinesa e seus métodos de diagnóstico entre o mítico imperador Huangdi e seis ministros seus, encontramos uma vasto conjunto de técnicas médicas baseadas no estilo de vida e teorias Daoístas, de forte conteúdo xamanico, que passariam a constituir uma referência da ligação entre estas, formando a base estrutural de todo o pensamento tradicional chinês.

Ainda segundo o Huangdi Neijing, o universo seria regido por várias forças e princípios de acordo com as oscilações Yin Yang, balançados e em perpétuo movimento, em que o Qi (energia vital) funcionaria como a força motora reguladora deste equilíbrio e os Cinco Elementos, Wuxing, a interacção e relacionamento dos distintos fenómenos. Compreendendo e estando em harmonia com estas forças, e sendo ainda um reflexo microcósmico do universo, logo subjugado por essas mesmas forças, o homem poderia manter-se também ele em equilíbrio através da prática de um estilo de vida saudável de acordo com estes princípios universais. Da mesma forma que o céu (sol, lua e estrelas) e a terra (fogo, água e vento) eram constituídos cada um deles pelos três tesouros, também o homem seria sustentado por três substâncias que estariam na base do suporte da vida: a essência (Jing), energia vital (Qi) e espírito (Shén), os três tesouros do homem (Sanbao).

A regulação, fortalecimento e equilíbrio destas substâncias no homem acabariam por constituir, em última análise, a matriz das técnicas de longevidade e da Medicina Tradicional Chinesa, sendo esta a chave principal dos textos antigos, que haveriam de persistir nos tempos posteriores até à actualidade, constituindo o coração desta filosofia e do espectro alargado da cultura chinesa, em todas as suas manifestações.

É interessante verificar que estes exercícios ancestrais de Daoyin não nascem de forma crua como resultado de necessidades terapêuticas, mas são antes desenvolvidos a partir de um modelo filosófico já elaborado, como que integrando uma ordem universal pré-existente, adaptando o homem e as forças e princípios que o regem, a esse mecanismo universal e cosmológico. Surge um modelo que formará o paradigma base da cultura chinesa, influenciando toda a comunidade e a sua forma de pensar.

 

Compreender um pouco os conceitos clássicos

Nas tradições ocidentais com base no catolicismo, aprendemos que existe uma entidade universal, Deus, criador do universo e regulador de todos os seus fenómenos. Deus estimula a prática do bem e recompensando-nos com a imortalidade a seu lado; por outro lado, existe o Diabo, a personificação do mal e da tentação, que nos lançará nas chamas infinitas do inferno. Um personifica o bem e o outro representa o mal, estando o homem no meio de uma deliberação contínua entre estes dois pólos, o bem e o mal, preto ou branco.

Esta definição exacta e definida, não encontra paralelo no pensamento tradicional chinês, onde existe uma visão mais circular, e onde as coisas e os seus fenómenos não são claramente brancas ou pretas, mas antes um equilíbrio entre os dois pólos, uma alternância harmoniosa entre uma determinada quantidade branca e outra preta.

Este é um princípio universal, denominado Taiji (a harmonia dos opostos) e que evolve de um conceito mais abstracto, vasto e vazio, cheio de nada e sem existência mas que no momento seguinte origina todos os fenómenos e acontecimentos: o Wuji. Este conceito é visto como o grande vazio, eterno e intemporal, insubstancial mas contendo em si toda a substância, podendo de alguma forma encontrar-se um paralelo na actual física quântica, no tempo imediatamente anterior ao big bang.

Do Wuji surge o Taiji. Nas palavras de Laozi “… do Um surge o Dois, do Dois surge o Três e as Dez mil coisas…”. A partir deste momento todas as coisas evoluem, ocorrendo o Yin e Yang, o substancial e o insubstancial, a alternância harmoniosa dos contrários. Yin é passivo, feminino, frio, escuro, noite, inverno… Yang o contrário, activo, masculino, claro, dia, verão… A relação entre estes dois estados está no entanto longe de ser estática ou matematicamente proporcional; numa interacção dinâmica, um origina o outro, num ciclo contínuo onde cada um deles tende a ser dominante ou dominado… À noite segue-se o dia,  ao verão segue-se o inverno, ao alto corresponde o baixo, e entre eles estados infinitos de fenómenos e acontecimentos, estados contínuos de alternância.

No Yijing (Livro das Mutações), esta dualidade é simbolicamente representada por uma linha cheia, Yang ( __ ) e outra partida, Yin ( __ __ ), e a mistura deste binómio forma as Quatro Imagens (Si Xiang), ilustrando as diferentes proporções dos processos de mutação, cuja progressão origina os Oito Trigramas (Bagua), quando combinados na forma de trigrama, conjuntos de três linhas.

As Quatro Imagens representam de forma abstracta mas ilustrativa, os processos de transição das mutações, simbolizando cada uma das quatro imagens um estado, que representa ele mesmo uma transição ou um fase. Desde um Yang supremo (Tai Yang) evolui um pequeno Yin (Shao Yin), originando por sua vez um Yin supremo (Tai Yin); a partir deste surge um Yang pequeno (Shao Yang) repetindo-se indefinidamente o ciclo ao originar um Yang supremo. Na transição dos dias podemos exemplificar esta mutação cíclica, em que o dia (supremo Yang) origina o crepúsculo (pequeno Yin), evoluindo em seguida a noite (supremo Yin) que por sua vez dá origem ao amanhecer (pequeno Yang) voltando novamente ao dia iniciando-se novo ciclo, contínuo e imutável.

O famoso diagrama do peixe duplo, ilustra de forma simbólica esta interacção entre opostos; o lado escuro representa o Supremo Yin e o lado claro o Supremo Yang, tendo cada um deles um pequeno círculo de cor contrária que significa a origem e mutação de um em relação ao outro.

 

Qi, sopro vital

Para o fortalecimento das habilidades internas, o desenvolvimento do Qi interno torna-se fundamental. Reforçar, manter, armazenar e circular o Qi, são processos indispensáveis ao correcto fortalecimento de corpo e mente, rumo a um entendimento profundo do Taijiquan ou do Qigong, a um estado energético e de consciência superior.

Mas afinal o que é o Qi? Entendido frequentemente como uma espécie de fluxo energético, e comparado um pouco aos termos aristotélico energeia ou ainda ao sânscrito prana, verdade é que o seu conceito tem variado substancialmente desde as primeiras referências já existente nas formas arcaica da escrita chinesa, e o seu entendimento actual é de certa forma pouco preciso e abstracto. Basicamente, a palavra significa uma espécie de força primordial presente em todas as coisas, muitas vezes seguindo uma ordem ou padrão, Li (Qi e Li são categorias fundamentais das filosofias monistas chinesas, podendo ser compreendidas um pouco como energia e matéria. Li pode ser traduzido por padrão, forma ou ordem).

Pese que signifique literalmente respiração ou sopro, pode-se actualmente entender Qi como “energia vital”, “força vital” ou “sopro vital”, suporte essencial de todas as manifestações vivas e não vivas, de acordo com os diferentes tipos que existem. A existência deste fenómeno ou atributo per se não está provada, podendo nos tempos actuais e para as mentes mais mecanicistas e cartesianas, representar os diferentes tipos de força que existem, como a gravítica ou a electromagnética, que cimentam estruturas macro e microscópicas, e que de uma escala a outra se vão inter-relacionando; outra ideia aproximada seria também uma espécie de corrente eléctrica existente nos corpos vivos, a bioenergia.

Presente em todo o universo, à escala humana o Qi presente no corpo do homem é aquele que interessa ao praticante de Taijiquan e Qigong; existe sem forma, cor ou substância, mas pode ser sentido através de algumas manifestações físicas como sensação de calor em algumas partes do corpo, ou simples formigueiro. O Qi é formado nos rins, armazenado e dirigido para o Dantien e Qihai (Oceano do Qi – pontos de acupunctura que actuam como zonas locais de focalização do Qi), onde actua como central de coordenação, regulando a circulação pelos distintos canais espalhados pelo corpo, os meridianos (Jingluo), chegando a todas as células do corpo e conectando a superfície do corpo com o seu interior. De acordo ainda com as teorias médicas da medicina tradicional chinesa (MTC), existe o Qi pré-natal, herdado dos progenitores, e o pós-natal que se desenvolve a partir da comida, ar e exercício, que se dissipa facilmente.

De acordo ainda com a MTC, os sintomas de várias doenças são produto de blocagens ou rupturas do fluxo energético pelos meridianos, desequilíbrios ou deficiências do Qi nos órgãos Zang Fu

. Técnicas terapêuticas específicas são utilizadas no restabelecimento do equilíbrio do Qi, como acupunctura, moxabustão, massagens, tratamento por ervas, dietas especiais e exercícios físicos (Taijiquan e Qigong).

Na prática do Taijiquan e Qigong, a mente (Yi) deve ser utilizada para guiar o Qi, procurando a união entre todo o corpo coordenado pelo Dantien, que serve de eixo em conjunto com a cintura e a coluna vertebral, enviando o Qi para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo preenchendo e atingindo todas as extremidades do corpo, regressando eventualmente ao Dantian. Com a regularidade da prática, o Qi torna-se progressivamente cheio e forte, preenchendo Dantien, meridianos e finalmente todo o corpo.

 

A filosofia nos processos de treino do Taiji e Qigong

A importância destes conceitos filosóficos monistas na prática do Taijiquan ou do Qigong, não se resumem apenas a questões históricas ou metafísicas; a incompreensão destes conceitos por parte do praticante, levam-no a abordar de forma superficial o sistema, reduzindo a prática a uns meros exercícios calisténicos, perdendo-se o potencial marcial e os inúmeros benefícios para a saúde. A prática daquelas modalidades torna-se multidimensional, complexa e profunda quando enquadrada com estes conceitos de sabedoria clássica, integrando de forma harmoniosa os aspectos internos do corpo com o sistema muscular e esquelético, utilizando a mente (Yi, intenção) como o cimento de conexão destas duas dimensões, a interna e a externa.

No processo de treino do Taijiquan mais que no Qigong, é dada particular importância ao conceito substancial (yang) e insubstancial (yin). O entendimento de substancial e insubstancial, de acordo com os princípios Yin Yang, pode ser percebido nas dicotomias braços pernas, esquerda direita, ombros anca, corpo superior corpo inferior, alto baixo, etc.. A coordenação destes aspectos, permite ao corpo manter um equilíbrio constante e adequado em que a proporção substancial evolui para dar lugar à forma insubstancial e vice-versa, num processo de mutação cíclica constante.

No Taijiquan, entre a brandura e o rigor dos movimentos, o treino relaxado (song) guia o praticante para a suavidade (rou); desenvolve-se então a dureza (gang), altamente concentrada e focalizada num único ponto, emitida de forma rápida e espontânea (fajing); no extremo da dureza, a suavidade ganha novamente espaço, completando-se uma vez mais o ciclo, desta vez entre suave e duro, um dos aspectos mais marcantes e interessantes do Chen Taijiquan, que mais que nenhum outro, cristaliza na prática estes conceitos que lhe dão substância.

O primeiro movimento das sequências do Taijiquan, encerram em si o mais profundo sentido filosófico da filosofia Daoista, o Wuji, simbolizando o princípio universal cosmológico do advir, o potencial dos fenómenos por existir… a não existência contendo em si toda a existência. Nesta fase, não existe movimento, não existe técnica, não existe Taiji… não existindo, o Qi do praticante funde-se com o Qi cósmico, sublimando-se com o Dao. Do Wuji surge o Taiji, a manifestação de todas as coisas, a interacção de todos os fenómenos, com o seu princípio activo, o Yin e Yang. Nasce o movimento, guiado pela fluidez das suas técnicas onde a seguinte surge da anterior e funde-se com a que se segue; o interior dilui-se com o exterior, o substancial reveza-se com o insubstancial, numa alternância harmoniosa e cadenciada… o homem, a terra, o céu, o cosmos tornam-se um só… despertando um estado de consciência superior. Com o encerramento das sequências e a execução do movimento final, termina o ciclo, retornando novamente ao estado original, ao vazio absoluto… ao estado Wuji.

A importância destes princípios na prática do Taijiquan e no Qigong, concedem a estas actividades uma dimensão filosófica, metafísica e cosmológica, só entendida com a repetição sistemática do conjunto dos seus exercícios… A conexão destas modalidades com a natureza em toda a sua dimensão, projectam o praticante para um estado energético superior, após anos seguidos de prática assídua e constante. O equilíbrio interno (físico, mental e emocional) adquirido pelo treino árduo e intenso, funde-se com o meio envolvente tornando-se o praticante uno com o Dao, integrando a ordem natural e universal de coisas e fenómenos.

 

Saúde e longevidade, os benefícios da prática

O Taijiquan e o Qigong, como outras formas de arte na cultura chinesa, fundem e diluem na sua expressão física esta linha filosófica do pensamento clássico chinês, emprestando-lhe uma dimensão metafísica e espiritual única, percursora de uma nova atitude no enquadramento destas disciplinas. A prática do dos seus gestos, deixa o campo da mera exercitação física, e encontra na sublimação dos seus movimentos o caminho para a realização pessoal, o encontro com a própria natureza original.

Mas de que forma se manifestam estas disciplinas orientais? Quais os seus mecanismos de funcionamento e os benefícios da sua prática regular?

A agitação dos dias com o sistemático bombardeamento dos estímulos emocionais e sensoriais, o entretenimento de massas, o ênfase no sucesso profissional e pessoal, na popularidade, na sexualidade, o stress acumulado, as depressões e os estados de ansiedade resultantes e tantas outras situações derivadas desta sociedade cada vez mais tecnológica, industrializada e egoísta, afastam dramaticamente as pessoas de si mesmo e da sua natureza original, criando artifícios que definitivamente não respondem às necessidades de uma vida saudável e harmoniosa.

Um dos primeiros benefícios da prática regular dos métodos de Taijiquan ou Qigong, é precisamente a redescoberta da introspecção, reflexão e interioridade. Estas características começam progressivamente a emergir ao compasso de uma respiração cuidada, suave e profunda, uma função chave neste processo de transformação interior. Esta função está intimamente relacionada com a mente; tipicamente as tensões emocionais ou físicas resultam numa respiração curta e rápida, e os processos de relaxamento têm tendência a alongar e aprofundar os ciclos respiratórios.

Do ponto de vista ocidental, podemos fazer uma aproximação aos benefícios da prática destes exercícios como métodos de activação e estimulação motora, cujas acções se manifestam de forma positiva nos sistemas simpático e para-simpático.

Sabemos hoje que a respiração se encontra conectada com o sistema nervoso autónomo (SNA) e as suas ramificações: o simpático (SNS) e para-simpático (SNP). O primeiro potencia acções que permitem ao organismo responder a situações de stress, estimulando situações de alerta e protegendo o organismo de possíveis perigos;  as partes terminais dos nervos emitem neurotransmissores que excitam as glândulas suprarrenais a segregar poderosas hormonas (adrenalina) que por sua vez aumentam a frequência cardíaca e respiratória. Influenciam também a digestão, acelerando a função metabólica através do aumento da secreção ácida no estômago. Por outro lado, o sistema nervoso para-simpático é o responsável por estimular acções que permitem ao organismo responder a situações de calma, activando neuro-transmissores como a acetilcolina que baixa a pulsação e a frequência respiratória. O resultado é o incremento do conforto, da relaxação e do sono.

E esta relação entre estes dois sistemas, simpático e para-simpático, é uma relação bastante íntima encontrando-se de alguma forma conectados através do sistema endócrino (segregação de endorfinas e encefalinas), que regula a produção de hormonas vitais à actividade, sexualidade e crescimento. Estando um activo o outro encontra-se desligado, e este equilíbrio ou desequilíbrio entre estes dois sistemas, produz maior ou menor quantidade de hormonas ora ligado a um sistema ora ligado a outro, modulando reacções do organismo a situações de stress, dor, apetite, humor, estados emocionais em geral, entre outras reacções e comportamentos.

Percebendo determinada situação como stressante, o corpo humano acciona o sistema simpático, o ritmo cardíaco aumenta e os ciclos respiratórios diminuem, fazendo com que às células não chegue oxigénio suficiente, baixando as trocas energéticas e elevando os níveis de resíduos tóxicos, tornando o sangue mais ácido e aumentando os níveis de tensão. O hipotálamo e as glândulas pituitárias são estimulados, segregando hormonas como a cortisona e adrenalina para alimentar a sensação de urgência, tensão e ansiedade. E a respiração torna-se ainda mais rápida e curta, iniciando-se um ciclo muito difícil de parar.

Este mecanismo descrito, é a típica reacção às situações extremas do nosso quotidiano nos meios urbanos e industrializados. E é aqui que intervêm as disciplinas orientais como o Taijiquan e o Qigong, que terão um efeito contrário sobre o corpo humano, uma vez que a metodologia destas disciplinas estimula precisamente o lado oposto, o sistema para-simpático, promovendo o necessário equilíbrio do sistema nervoso e dos estados emocionais. Movimentos suaves e lentos coordenados com uma respiração profunda e ritmada, formam a matriz destas disciplinas orientais, diminuindo o ritmo cardíaco e permitindo que o corpo adquira as condições para produzir as funções necessárias a um estado emocional calmo, tranquilo e harmonioso.

Os diferentes métodos e técnicas permitirão o aprofundamento nestas técnicas de relaxamento e o domínio das mesmas. A respiração tem uma importância capital na prática destas disciplinas orientais. Acima de tudo deve ser natural, não forçada nem condicionada a algum tipo de fórmula, caso contrário resulta numa quebra do fluxo normal da energia, e por conseguinte numa ruptura da união das qualidades internas e externas. Se bem existam algumas linhas de orientação relativamente a determinadas fases dos exercícios, a naturalidade e espontaneidade da respiração não deve ser subjugada às exigências do movimento, mas antes acompanhá-lo de forma subtil, silenciosa e fluída.

É através da respiração controlada, ritmada e profunda que o corpo progressivamente relaxa, estimulando e potenciando a mente para um estado superior de tranquilidade e clarividência, incrementando ainda mais a agradável sensação de paz e bem estar, carregando as reservas energéticas do corpo (Qi) e permitindo que este circule pelos meridianos, reforçando-se e aumentando a vitalidade do corpo humano, seguindo um ciclo contínuo que se auto-estimula e alimenta. Entra-se num processo de meditação, num estado de calma e concentração mental mais elevado que tem como resultado a promoção de uma saúde optimizada, aliviando o stress e acabando por manter um equilíbrio homeostático regulador, aumentando como consequência a disposição física e mental, a capacidade de memória, o estado de espírito, o controle das emoções, a resistência física e mental… a longevidade.

E de acordo com os textos antigos, o objectivo último é o combate: do controle das forças externas ao controle das forças internas; do domínio do adversário ao próprio domínio; da agitação do conflito à tranquilidade da mente. O uso da mente, o controle da respiração, a manipulação da energia interna permitem a ligação ao corpo externo, conectando corpo, mente e espírito num único elemento, permitindo que este oscile de acordo com a dualidade Yin Yang, cheio e vazio, retiro e avanço, alto e baixo, suave e duro. Do estado inicial de plena quietude ao da flutuação ondulante Yin Yang, assoma progressivamente uma consciência superior, um estado mental elevado, uma imersão no interior mais profundo e a união com o meio envolvente, equilíbrio entre os azuis indefiníveis da terra e do céu…  manifesta-se a “Suprema Cumeeira”… atinge-se a imortalidade.

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